A terra debaixo dos teus pés
Olha à tua volta. Estás em Serralves, 18 hectares de jardins, bosques e quinta agrícola no meio do Porto. E a exposição que vais ver chama se Soil Art Tales, ou seja, Histórias de Arte e Solo. Antes de entrares nos espaços onde estão as obras, preciso de te dar algum contexto.
Quando alguém te diz "solo", provavelmente pensas em terra. Lama. Aquela coisa castanha que se cola aos sapatos. Mas numa colher de chá de solo saudável vivem mais microrganismos do que pessoas existem no planeta inteiro. Estamos a falar de mil milhões de bactérias, milhares de metros de filamentos de fungos, protozoários, nemátodos. Uma cidade inteira, invisível, a trabalhar sem parar para que tudo o que está à superfície continue vivo. E a maior parte de nós nunca pensou nisso.
Esta exposição junta quatro artistas internacionais, de gerações e origens diferentes, que decidiram olhar para o solo como matéria artística. Binta Diaw, italiana de origem senegalesa. Nikki Lindt, holandesa a viver em Nova Iorque. Jo Pearl, britânica de Londres. E Miguel Teodoro, português, a trabalhar entre o Porto e os Países Baixos. Cada um aborda o solo de uma maneira completamente diferente: pelo corpo, pelo som, pela ciência, pela política. E o resultado é uma conversa que funciona mesmo sem os quatro estarem na mesma sala.
A exposição é curada por Stefano Cagol, um artista italiano que trabalha há anos nas áreas da arte ambiental e eco art, e que desde 2023 dirige o Castel Belasi, um centro de arte contemporânea para o pensamento ecológico nos Alpes. A seleção dos artistas foi feita através de uma convocatória internacional com uma resposta que Cagol descreveu como "excecional". Quatro posições, quatro formas de traduzir o que o solo significa.
O projeto maior chama se SoilTribes, é financiado pelo Horizonte Europa e organizado pela Rede Global de Museus da Água. Em Serralves, é apresentado no âmbito do projeto europeu SoilScape, em colaboração com a Universidade de Coimbra. A exposição vai percorrer sete museus europeus, de Roma a Sófia, da Eslovénia à Polónia.
As obras estão instaladas no Celeiro e no Lagar da Quinta de Serralves, dois edifícios rurais que já faziam parte da propriedade original. O celeiro guardava cereais, o lagar prensava azeitonas para fazer azeite. Foram redesenhados pelo arquiteto Marques da Silva nos anos 40, e hoje funcionam como galerias. Há qualquer coisa de poético em usar estes espaços para uma exposição sobre o solo. Porque o solo era o que fazia tudo isto funcionar. Sem solo fértil, não havia cereais para guardar nem oliveiras para prensar.
Estes edifícios são o oposto das grandes salas brancas e assépticas dos museus contemporâneos. Têm uma escala humana, uma luz própria, e uma honestidade construtiva que não compete com as obras. E essa contradição entre o funcional e o artístico, entre o rural e o conceptual, é exatamente o ponto de partida perfeito.
A União Europeia lançou em 2021 a missão "Um Pacto para o Solo na Europa", com o objetivo de ter 75% dos solos europeus saudáveis até 2030. O facto de haver financiamento europeu para trazer artistas a falar sobre solo diz algo sobre a urgência do assunto. Porque relatórios científicos existem aos milhares e a maioria de nós nunca leu nenhum. O que a arte faz é diferente: traduz dados em experiências sensoriais, em momentos que ficam no corpo e na memória.
Vamos a isso.
Listen to the audio guide: