A Aberta: O Banco de Areia Mais Caro de Portugal
Olha para aquela estreita faixa de areia que separa as águas calmas da lagoa das ondas do Atlântico. Estás a ver aquele canal que serpenteia pela areia? Chama-se a Aberta, e mantê-la aberta é um trabalho a tempo inteiro desde 1377. Não é erro de escrita. Há mais de 640 anos que alguém anda a escavar esta passagem para evitar que a lagoa sufoque.
A Aberta é fundamentalmente instável. As tempestades de inverno podem movê-la 40 metros de um dia para o outro. As marés vivas enchem-na de detritos. De poucos em poucos anos, fecha completamente, o que aconteceu pela última vez em fevereiro de 2024. Quando isso acontece, a lagoa estagna, os bivalves morrem e cerca de 100 pescadores perdem o seu sustento. Em 2023, um fecho provocou uma proibição de pesca de três meses que deixou 80 famílias sem rendimento.
Faz as contas: três rios despejam cerca de 43.000 metros cúbicos de sedimentos nesta lagoa todos os anos. Sem intervenção, os investigadores confirmam que isto se transformaria num pântano em poucas décadas. O último projeto de dragagem, concluído em 2022, custou 14,6 milhões de euros e removeu 875.000 metros cúbicos de lama. Isso compra talvez uma década antes de terem de o fazer outra vez.
Esta costa é o que o arqueólogo marinho francês Jean-Yves Blot chamou de "cemitério de navios". Entre 1764 e 1923, mais de 300 embarcações naufragaram neste troço. O mais mortal foi o SS Roumania, que foi ao fundo aqui perto com cerca de 120 almas a bordo. Só nove sobreviveram. Ainda podes ver um naufrágio no canal, embora os especialistas debatam se é o Roumania ou outra vítima.
O problema é óbvio se fores um capitão de navio que não conhece estas águas. A Aberta serpenteia de forma imprevisível. Há rochas escondidas sob a superfície. As correntes são violentas e traiçoeiras. Registos históricos mencionam "roubo e pirataria" associados a naufrágios, que é uma forma educada de dizer que a população local pilhava a carga dos navios destruídos. Em 1843, as autoridades estabeleceram aqui um posto fiscal especificamente para monitorizar esta atividade.
João I organizou a primeira operação sistemática de limpeza do canal no início do século XV, convocando trabalhadores do Cadaval e de Atouguia para cavar. Mais tarde, João IV decretou que o canal não podia ser modificado sem supervisão municipal. Ao longo do século XIX, pescadores e agricultores cavavam manualmente canais em direção ao mar após cada inverno. Hoje usam escavadoras, mas o princípio é idêntico.
Nadar na lagoa é seguro. Nadar na Aberta em si? Nem pensar. As correntes não querem saber do quão bom nadador achas que és.
Estás a olhar para o banco de areia mais caro de Portugal, mantido vivo pela teimosia, por maquinaria pesada e pelo facto de demasiada gente depender dele.
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