Introdução ao Museu Nacional dos Coches
O Museu Nacional dos Coches alberga a melhor coleção de coches reais do mundo. Não porque Portugal fosse o reino mais rico – sejamos honestos, para os padrões europeus, éramos os primos que casaram bem, mas que ainda viviam modestamente – mas porque, enquanto outras nações estavam ocupadas a queimar os seus coches reais durante as revoluções ou a perdê-los para as guerras, Portugal manteve a sua coleção relativamente intacta.
Estes não são apenas carros antigos sofisticados. Estes veículos elaboradamente decorados eram os jatos privados e os SUVs de luxo da sua época, exibições ostentatórias de riqueza e poder. Quando um rei ou uma rainha passava pela cidade num destes meninos, todos sabiam exatamente quem estava a chegar. Estes coches não transportavam apenas a realeza; transportavam uma mensagem: "Vejam como sou imensamente rico e importante."
A coleção abrange quatro séculos de transporte pré-motorizado, apresentando cerca de 100 veículos diferentes: coches, berlindas, cadeirinhas, liteiras e diligências. Cada um representa não apenas a tecnologia de transporte, mas todo um mundo social e político. Os coches mais extravagantes custavam mais do que construir palácios inteiros e exigiam até oito cavalos para os puxar.
Numa época anterior aos meios de comunicação de massa, estes veículos serviam como máquinas de propaganda móveis. A sua decoração luxuosa – folha de ouro, pinturas requintadas, figuras esculpidas – contava histórias do poder de Portugal, da riqueza colonial e das ligações a outras cortes europeias. Quando um embaixador português chegava a algum lugar num destes coches, todos entendiam a mensagem antes de uma única palavra ser dita.
Alguns destes veículos testemunharam momentos cruciais da história portuguesa: casamentos reais, tentativas de assassinato, missões diplomáticas que mudaram o curso da política europeia. Outros contam histórias mais banais da vida quotidiana da realeza – o equivalente em coche a levar o Bentley para ir às compras.
O que torna esta coleção verdadeiramente especial é o facto de conter exemplares únicos que já não existem em mais lado nenhum. Quando veio a Revolução Francesa e os coches foram queimados como símbolos do excesso real, quando a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais destruíram inúmeros tesouros históricos por toda a Europa, o relativo isolamento e neutralidade de Portugal ajudaram a preservar estas obras de arte móveis.
A rainha D. Amélia, a última rainha de Portugal, teve a brilhante visão de transformar o picadeiro real neste museu em 1905. Em vez de deixar que estes tesouros ganhassem pó nas cavalariças reais depois de os carros os terem tornado obsoletos, ela reconheceu o seu valor histórico e artístico. A coleção permaneceu lá até 2015, quando se mudou para o seu atual museu construído propositadamente.
À medida que avançamos por esta coleção, verás a evolução da tecnologia de transporte do século XVI ao século XIX – desde coches pesados e volumosos que demoravam dias a viajar entre cidades até diligências relativamente leves que revolucionaram o transporte público. Verás também como as mudanças no estilo artístico – desde a estética severa da Contrarreforma ao exuberante Barroco e ao delicado Rococó – se refletem nestes veículos.
Portanto, esquece tudo o que achas que sabes sobre coches dos contos de fadas e dos dramas de época. Estes não eram apenas passeios bonitos para princesas. Eram símbolos de estatuto caros e impraticáveis que gritavam "Tenho mais dinheiro do que sei o que fazer com ele" – o equivalente no século XVII a sanitas folheadas a ouro e smartphones cravejados de diamantes.
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