A Rua que Recorda um Cerco
Antes de entrarmos, tenho de te contar porque é que esta rua se chama Rua do Heroísmo, porque não é apenas um nome bonito que alguém escolheu.
Entre julho de 1832 e agosto de 1833, o Porto esteve sob cerco durante 14 meses. Eram as Lutas Liberais, e foi uma guerra civil. D. Pedro, o liberal, detinha o Porto. D. Miguel, o absolutista, cercou-o. Dois irmãos a lutar pela alma política de Portugal: monarquia constitucional contra o poder real absoluto.
O Porto escolheu o lado liberal, o que significou que a cidade suportou mais de um ano de isolamento, bombardeamentos e fome extrema. A população sofreu imenso, mas a cidade recusou render-se. Essa resistência tornou-se um símbolo de toda a causa liberal em Portugal.
O nome da rua vem de um dia em particular: 29 de setembro de 1832. Nessa manhã, os miguelistas conseguiram furar as defesas orientais do Porto exatamente aqui, neste bairro. O que se seguiu foram nove horas de combate brutal, rua a rua. As casas tornaram-se fortificações. Civis ficaram presos no fogo cruzado. Quando os atacantes finalmente retiraram ao cair da noite, mais de 650 baixas marcaram o dia.
Chamaram a esta rua Rua do Heroísmo para homenagear não só essa batalha, mas toda a provação dos 14 meses. É um memorial construído na geografia da cidade. Cada vez que alguém escreve esta morada, está a recordar o sacrifício do Porto durante a luta política definidora de Portugal no século XIX.
Este cerco forjou a identidade do Porto como uma cidade progressista, disposta a suportar dificuldades por princípios. Essa autoimagem ficou. Vais vê-la na sala da revolução de 1891 lá dentro, vais vê-la na forma como esta cidade fala de si própria ainda hoje.
O edifício onde estás prestes a entrar situa-se numa rua batizada pela resistência. Tem isso em mente enquanto aprendes sobre a sua história posterior com a PIDE. O Porto tem relações complicadas com o poder e a liberdade. O nome desta rua é onde essa história começa
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