O Palácio e a Lenda
Estás no pátio de entrada do Palácio Pimenta, aqui no Campo Grande.
Olha para a fachada. Discreta, elegante, quase tímida para um palácio do século XVIII. Nada de exageros dourados, nem escadarias monumentais viradas para a rua. Isto era uma quinta de recreio, uma casa de campo para gente rica que queria fugir do centro de Lisboa. E por trás desse ar pacato, esconde-se uma das melhores fofocas da história portuguesa.
A versão oficial, a que anda nos guias, diz-te que isto foi construído pelo Rei D. João V para a sua amante, Madre Paula. Uma freira. Sim, uma freira. Ele era conhecido como "O Freirático", que é basicamente o equivalente setecentista de dizer que o homem tinha um tipo muito específico.
Madre Paula vivia no Mosteiro de Odivelas, e o rei visitava-a com uma regularidade que não era propriamente discreta. Tiveram um filho, que mais tarde se tornou Inquisidor-Geral. Lê isso outra vez: o filho bastardo de um rei e de uma freira acabou a chefiar a Inquisição. A história portuguesa não precisa de ficção.
Mas, e isto é importante, a investigação recente, publicada em 2024 num livro chamado "As Três Vidas do Palácio Pimenta", desmontou a lenda. O palácio foi encomendado por um jurista chamado Diogo de Sousa Mexia, entre 1734 e 1746. Um desembargador com bom gosto e bastante dinheiro. D. João V construiu, sim, aposentos luxuosos para Madre Paula, mas no próprio Mosteiro de Odivelas, numa torre que foi demolida em 1948.
A confusão entre os dois lugares colou-se à memória popular e ninguém se deu ao trabalho de a corrigir. Talvez porque a lenda é simplesmente boa demais para se deitar fora.
O palácio passou por três vidas: primeiro, quinta nobre da família Galvão-Mexia. Depois, fábrica têxtil com oitenta teares a produzir algodão e seda para o Brasil. E finalmente, a partir de 1979, o museu que vais visitar agora.
O nome "Pimenta" vem de um empresário do século XIX, Manuel Joaquim Pimenta de Carvalho, que comprou a propriedade. Nem rei, nem freira. Um homem de negócios. Mas confessa: a versão com a freira era melhor, não era?
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