Pátio da Inquisição
Estás no Pátio da Inquisição. Olha à tua volta: estas arcadas elegantes, estes capitéis jónicos, este espaço amplo. Isto foi desenhado para ser um lugar de luz. O Real Colégio das Artes abriu portas aqui em 1548, pensado para ser o centro do humanismo português. Imagina: estudantes a discutir filosofia, retórica, teatro clássico. Durou muito pouco tempo.
Quando o edifício foi entregue ao Tribunal do Santo Ofício, que aqui se estabeleceu a partir de 1566 e pediu também os colégios vizinhos aos Jesuítas, este edifício bonito transformou-se noutra coisa. O refeitório, aquela sala enorme com quase 40 metros de comprimento e capacidade para 1200 estudantes, passou a ser, em parte, a casa do tormento. As salas de atos e disputas tornaram-se celas. O pátio interior, com a sua colunata renascentista, encheu-se de cárceres apertados. Os desenhos de Matheus do Couto, de 1634, mostram isso com uma frieza burocrática: onde antes havia espaço de estudo, passou a existir o "pátio dos cárceres".
A Inquisição funcionou aqui entre 1566 e 1821. Duzentos e cinquenta e cinco anos. Processou mais de 11.000 pessoas. A grande maioria eram cristãos-novos, antigos judeus forçados à conversão, acusados de continuarem a praticar a sua fé em segredo. Cerca de 200 morreram queimados em autos de fé. Muitos mais foram torturados, presos, despojados de tudo o que tinham.
Quando o Tribunal foi finalmente abolido, em 1821, o deputado que propôs a extinção, Borges Carneiro, queria que os edifícios fossem destruídos. Não foram. E talvez seja melhor assim. Porque este sítio, com as suas cicatrizes visíveis, conta uma história que não deve ser esquecida. E é essa história que vamos percorrer juntos.
Este guia é sobre os judeus de Coimbra. Sobre séculos de presença, de contributo, de convivência. E sobre o que acontece quando a tolerância acaba
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