WALKING IS MEASURING, 2000
CAMINHAR É MEDIR - RICHARD SERRA
Olha para estas duas chapas de aço à tua frente. Enormes, enferrujadas, plantadas entre as árvores e o muro do parque. Parecem ter sido aqui largadas por acidente, mas acredita: cada centímetro foi calculado ao milímetro por Richard Serra, um dos escultores mais importantes do século vinte.
Serra cresceu em São Francisco, filho de um soldador de estaleiros navais. Em miúdo, assistiu ao lançamento de um petroleiro gigante ao mar. Aquele momento, uma massa colossal de aço a tornar-se leve ao tocar na água, ficou-lhe para sempre na memória. Décadas mais tarde, o mundo inteiro reconhecia as suas esculturas de aço corten, aquele aço que oxida de propósito, que muda de cor com o tempo, que envelhece contigo.
Esta obra chama-se Walking Is Measuring, "Caminhar é Medir". E não é um título poético por acaso. Serra escolheu pessoalmente este local no Parque de Serralves. Havia aqui uma antiga alameda ladeada por árvores e pedra, um corredor íntimo entre o muro original da propriedade e o arvoredo. Quando o Museu de Álvaro Siza foi construído em 1999, esta passagem ficou esquecida, marginalizada. Serra viu isso e decidiu corrigi-lo. O objetivo declarado dele era devolver as pessoas a este espaço, restaurar a privacidade e a intimidade desta avenida histórica.
As duas placas retangulares de aço, uma com mais de cinco metros de altura, foram colocadas aqui no ano 2000, financiadas pelo Prémio Tabaqueira de Arte Pública. A ideia é simples e brutal: quando caminhas entre elas, o teu corpo torna-se a unidade de medida. Tu medes o espaço. Tu dás escala àquilo que te rodeia.
Serra morreu em março de 2024, aos 85 anos. Passou a vida a criar obras que provocavam reações viscerais. Em Nova Iorque, o famoso Tilted Arc, uma parede de aço de 36 metros no meio de uma praça federal, foi tão odiado pelos trabalhadores de escritório que acabou removido e destruído em 1989. Serra ficou devastado. Mas aqui, em Serralves, a história é outra. A peça encaixa. Não bloqueia, guia. Não provoca, convida.
Faz o que o título pede. Caminha. Devagar. Sente o teu corpo a medir este espaço.
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