Sintra: A Montanha Sagrada
Bem-vindo à Serra de Sintra, um lugar tão especial que os antigos Romanos lhe chamaram "Mons Sacer" ou Monte Sagrado. Mas sejamos honestos: os humanos têm chamado "sagradas" a colinas impressionantes desde que descobriram como apontar para as coisas.
Esta serra acumulou mais alcunhas elaboradas do que um poeta renascentista. Ptolomeu chamou-lhe "Selénes óros" – a Montanha da Lua – um nome que ainda hoje é usado por quem quer parecer culto num jantar.
Os antigos não se limitavam a venerar este lugar; abraçavam o fantástico. Segundo a lenda, éguas vagueavam por estas colinas e eram fertilizadas por Zéfiro, o deus grego do vento oeste. Sim, ouviste bem: cavalos engravidados pelo vento que davam à luz potros mais rápidos que o próprio vento. A mitologia antiga tinha realmente um dom para a biologia reprodutiva criativa.
Os humanos instalam-se nestas rochas desde o Neolítico. O Tholos do Monge, um túmulo pré-histórico no terceiro ponto mais alto da serra, prova que até os povos da Idade da Pedra reconheciam a importância desta montanha. Não estavam apenas de passagem; estavam a fazer afirmações arquitetónicas permanentes.
Os Romanos adoravam o Sol e a Lua em santuários perto da Praia das Maçãs, e séculos mais tarde os Muçulmanos estabeleceram um ribat (retiro religioso) no mesmo local. Esta montanha tem um talento notável para convencer os humanos de que estão mais perto de quaisquer deuses em que acreditem.
A nobreza portuguesa percebeu cedo os benefícios práticos de Sintra – nomeadamente, que é significativamente mais fresca durante o verão. Construíram palácios para escapar ao calor, criando uma tradição secular de gente rica com segundas casas que só usam durante breves períodos do ano. O Palácio Nacional de Sintra é um testemunho desta prática, com mais de cinco séculos de renovações e adições aristocráticas.
Mas foi no século XIX que Sintra abraçou verdadeiramente a sua identidade romântica. Quando o Romantismo varreu a Europa, o poeta britânico Lord Byron apelidou Sintra de "glorioso Éden", desencadeando uma onda entusiástica de admiração artística e turismo. De repente, ter uma propriedade em Sintra não era apenas prático – era moda.
A paisagem floresceu com arquitetura revivalista, à medida que proprietários abastados construíam palácios cada vez mais fantásticos. Estavam obcecados com a estética medieval, mundos de fantasia literária e profundo simbolismo esotérico – criando, no fundo, manifestações arquitetónicas dos seus ideais românticos e interesses filosóficos.
Palácios como Monserrate, Seteais e a Regaleira emergiram deste renascimento arquitetónico, cada um mais elaborado que o anterior. Mas mesmo estes foram superados pela extravagância colorida do Palácio da Pena, que se ergue sobre a paisagem como um castelo de conto de fadas tornado real.
Ao explorarmos hoje o Convento dos Capuchos e o Santuário da Peninha, verás um lado diferente de Sintra – um onde a simplicidade e a devoção espiritual contrastam fortemente com o excesso elaborado que define grande parte desta serra. É o lembrete perfeito de que, mesmo em locais associados a riqueza e privilégio, os humanos sempre encontraram caminhos diferentes para o significado – alguns através de palácios ornamentados, outros através de celas forradas a cortiça e silêncio contemplativo.
Lembra-te, enquanto percorremos estes caminhos, que estás a pisar o mesmo solo onde humanos pré-históricos construíram túmulos, sacerdotes romanos realizaram rituais, fiéis muçulmanos rezaram, monges medievais contemplaram a divindade e poetas românticos encontraram inspiração. Poucos lugares na Terra condensam tantas camadas de expressão espiritual e cultural humana num espaço geográfico tão compacto.
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